16 de agosto de 2012

“Também tenho de vender o meu peixe”


As pessoas têm sempre muitas coisas para dizer. É uma necessidade de repetir frases feitas até à exaustão que deixam qualquer ouvido extenuado.

Já assisti a incontáveis discursos, debates com auditório e direito a perguntas do público e reuniões e tertúlias sobre os mais variados temas. Em todas essas situações, e entre muitas outras possíveis conclusões, uma destacou-se sempre em todas – essa tremenda necessidade de falar que as pessoas têm. E que dizem elas? Sobretudo, o que dizem elas que não tenha sido já dito por quem acabou de falar? Nas “perguntas do público” então consegue-se sempre arranjar o(s) cromo(s) de serviço – o engraçadinho que julga ter piada, o fóssil que leu um livro (e apenas um) e o cita sempre que julga ter público atento, o pseudo-intelectual que mostra o seu enfado no tom de voz, na postura e no cheiro…

No entanto, quase sempre que alguma pessoa tem o seu momento, parece desperdiçá-lo. Quantas vezes numa qualquer manifestação o jornalista se dirige a alguém que vai gritando palavras de ordem e se depara com a hesitação: “… porque é que estou aqui?.. Então… porque isto está mal, está muito mal, e eles são uns gatunos, é o que é!” Os que acabam por ter um discurso mais estruturado nessas situações desfiam uma cassete que, apesar de quase sempre merecer o meu respeito, tem o mesmo efeito da morfina.

E nas reuniões? Nas intermináveis reuniões onde se discute actualidade política? Tantas bocas ávidas do seu momento e tantos ouvidos desligados – como diria o Paulo Bento – assim mesmo, com toda a eloquência que o caracteriza. A ele e aos discursos da maior parte dessas reuniões.

O que vale é que essas situaçõezinhas colectivas parecem fazer bem à saúde mental dos intervenientes. Sentem-se mais leves depois de falarem, depois de fazerem um bocadinho de barulho a repetir umas frases que ouviram a um senhor que elogiam muito quando ele está presente.

É absolutamente revigorante ouvir alguém que verdadeiramente tem alguma coisa para dizer, e que o diz com clareza, inteligência e sensibilidade.

Talvez volte a este assunto. 

O importante mesmo é dizer que tenho o maior respeito por quem não gosta de aparecer e de falar em público, mas lamento tanto que não ouçamos mais essas pessoas.

15 de agosto de 2012

Tresmalhadas

Farto de ouvir expressões e adjectivações “radicais”, pergunto-me se será possível alguém colocar-se entre os extremos sem ser amorfo, vazio de convicções e cheio de ganância. 

De um lado estão os mentirosos, considerados “ponderados e responsáveis”, que à força de tanto repetirem um discurso (porque têm espaço mediático e poder económico e político para o fazer) convencem qualquer incauto que queira ser convencido, isto é qualquer “português médio”. 

É uma elementar regra de Marketing: nunca ninguém vende nada a alguém que não queira comprar. Embora os vendedores da banha da cobra ainda achem que é graças às suas capacidades que conseguiriam vender frigoríficos aos esquimós no Pólo Norte. A realidade diz-nos que isso só acontece porque esses esquimós quereriam ter o mesmo aparelho que qualquer povo civilizado tem nas suas cozinhas. 

Do outro lado temos os realistas, apelidados de “radicais”, tão só porque acreditam que a realidade não está entregue a uma qualquer ordem universal suprema que tratará de endireitar as crises de tempos a tempos, deixando que os terrestres se preocupem apenas com as coisas que consideram "verdadeiramente importantes" (coisas essas que são, aliás, comuns a todos os seres vivos, desde os mamíferos aos invertebrados, passando pelas plantas e pelos fungos)… 

Acreditam, alguns desses “radicais”, verdadeiras ovelhas tresmalhadas, que têm de ser elas a fazer alguma coisa em conjunto pelo mundo, a começar por quem está mais perto, com os olhos sempre, sempre no futuro. Essas tresmalhadas (que aliás de ovelhas têm muito pouco, pois não gostam de seguir os passos dos outros só porque sim) têm também uma característica estranhamente rara - empatia. Procurando uma definição (está tão crescida a Wikipedia, não está?) lemos que esta «consiste em perceber corretamente o marco de referência interno do outro com os significados e componentes emocionais que contém, como se fosse a outra pessoa». E como a lucidez é absolutamente fundamental para definir uma pessoa e a sua inteligência, a definição continua com «colocar-se no lugar do outro, porém sem perder nunca essa condição de “como se”».

Através do conhecimento e da experiência tenta-se chegar à sabedoria. E essa passa, tantas vezes, por reconhecer as limitações próprias (tramadas) e as características dos que nos rodeiam. Como se pode aspirar à sabedoria sem lucidez e sem empatia (logo, sofrimento) é que eu não sei mesmo…

14 de agosto de 2012

"Intro"

Há demasiadas pessoas a achar que a vida lhes deve alguma coisa. Parece que a experiência não lhes ensinou que a arbitrariedade pode atingir qualquer um, a qualquer momento, com toda a força. Nenhuma vida interior é tão rica que impeça de se olhar em volta. O nosso espaço de intervenção pode ser a nossa casa ou o país, mas ele está aí - para ser questionado, moldado com as formas dos sonhos colectivos, mudado para melhor. O saber que não conduz à acção de pouco serve. Os actos que não têm por base a consciência arriscam-se a ser irresponsáveis. Miguel Torga, cujo desaparecimento foi assinalado esta semana, fala numa solidariedade umbilical, de berço: há um mínimo denominador comum que partilhamos que é o de estarmos vivos ao mesmo tempo. E para que estes tempos sejam menos penosos para alguns é preciso não nos resignarmos. Dizer presente! ao Presente.