As pessoas têm sempre muitas coisas
para dizer. É uma necessidade de repetir frases feitas até à exaustão que
deixam qualquer ouvido extenuado.
Já assisti a incontáveis discursos,
debates com auditório e direito a perguntas do público e reuniões e tertúlias
sobre os mais variados temas. Em todas essas situações, e entre muitas outras
possíveis conclusões, uma destacou-se sempre em todas – essa tremenda
necessidade de falar que as pessoas têm. E que dizem elas? Sobretudo, o que
dizem elas que não tenha sido já dito por quem acabou de falar? Nas “perguntas
do público” então consegue-se sempre arranjar o(s) cromo(s) de serviço – o engraçadinho
que julga ter piada, o fóssil que leu um livro (e apenas um) e o cita sempre
que julga ter público atento, o pseudo-intelectual que mostra o seu enfado no
tom de voz, na postura e no cheiro…
No entanto, quase sempre que alguma
pessoa tem o seu momento, parece desperdiçá-lo. Quantas vezes numa qualquer
manifestação o jornalista se dirige a alguém que vai gritando palavras de ordem
e se depara com a hesitação: “… porque é que estou aqui?.. Então… porque isto
está mal, está muito mal, e eles são uns gatunos, é o que é!” Os que acabam por
ter um discurso mais estruturado nessas situações desfiam uma cassete que, apesar
de quase sempre merecer o meu respeito, tem o mesmo efeito da morfina.
E nas reuniões? Nas intermináveis
reuniões onde se discute actualidade política? Tantas bocas ávidas do seu
momento e tantos ouvidos desligados – como diria o Paulo Bento – assim mesmo,
com toda a eloquência que o caracteriza. A ele e aos discursos da maior parte
dessas reuniões.
O que vale é que essas situaçõezinhas colectivas parecem fazer
bem à saúde mental dos intervenientes. Sentem-se mais leves depois de falarem,
depois de fazerem um bocadinho de barulho a repetir umas frases que ouviram a
um senhor que elogiam muito quando ele está presente.
É absolutamente revigorante ouvir
alguém que verdadeiramente tem alguma coisa para dizer, e que o diz com
clareza, inteligência e sensibilidade.
Talvez volte a este assunto.
O
importante mesmo é dizer que tenho o maior respeito por quem não gosta de
aparecer e de falar em público, mas lamento tanto que não ouçamos mais essas
pessoas.
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